Julgar O Livro E Não A Capa!
(...)
Esses homens, que posam como livros na minha prateleira intocável, muitas vezes ganham vida e saem dessa prateleira. E isso é um grande problema!
Imaginem que têm uma paixão, seja ela momentânea ou platónica, às vezes o facto de esse livro sair da prateleira só vem dar razão a quem disse que não se deve julgar um livro pela capa. (...)
Uma vez conheci um. Autorizei-me a ler, letra a letra, o que me dizia, sem nunca deixar que ele compreendesse as entrelinhas em que escrevo, rasurando toda a vulnerabilidade das minhas folhas e apresentando-me como um livro de capa rija.
Combinámos não especular e especulei. Especulei como seria
a sua voz, por só conhecer a sua voz cantada, qual a sua altura visto que a
escala fotográfica é enganadora, que perfume usava e até mesmo o que poderia
sentir aquando da sua presença física. Não somos todos especuladores e expectantes?
Tinha deixado a vida de estudante para se dedicar à vida que
sonhara, vivia agora o seu sonho e “fazia o que gostava”. Vivia o instante intensamente
e apaixonadamente, pelo que dizia e procurava um amor que se regrasse pelas
mesmas normas.
O que estávamos nós ali a fazer? O que estávamos eu ali a
fazer? Eu que nunca acreditei no amor à primeira vista, nem à primeira
conversa, que digo só acreditar no que vejo, que sempre achei que o amor nunca
foi muito com a minha cara e que nem sei ao certo se alguma vez senti “amor”, ou
se o senti de maneira tão arrebatadora como o descrevem, o que é que estava eu,
ali, a fazer?
Farta de especular o porquê de ali estar, perguntei-lhe o
que é o levou a estar ali. A resposta foi inesperada e deixou-me desconfortável.
Eu, não era eu. Condicionada pelo retrato que pintei dele, eu (sujeito) estava
a agir de acordo com essa expectativa que tinha dele (objecto) e estava a
tentar corresponder à expectativa que ele (objecto) tinha de mim (sujeito).
Eu que sempre esperei que o amor um dia me batesse
(levemente) à porta, indagava agora se ele não estaria a confundir os termos:
amor e paixão. Mas quem sou eu? Nessa busca pelo amor, parecia acreditar que
este fosse tão rápido como um flash. Será
que existe uma máquina que fabrique amor instantâneo, tal como uma polaroid? Que
eu saiba não, mas pouco ou nada sei.
Mostrei, como sempre, o meu lado pedra. Uma pedra que não
fica inibida, uma pedra que não fica vulnerável, uma pedra que mantem a postura
independentemente do assunto de conversa, situação ou lugar. E, ele, como
astuto que era, mostrou ser a água mole e, como já se sabe, “água mole em pedra
dura, tanto bate até que fura”.
Engoli a seco quando citou “e
infelizmente querido, eu, perdão, só me apaixono por mulher”. Ainda que não
tenha sido em tom de insulto, senti-me ofendida. Mas não estava eu a tentar
corresponder à expectativa? Até que ponto é que o meu eu estava ali exposto? Se
não estava porque é que me não consegui renunciar ao sentimento experienciado?
E porque é que não consegui renunciar ao pensamento?
Por ser cética e racional, ainda hoje, penso na Mulher que
não quero ser. Não quero ser, de todo, a “Mulher da vida” de alguém e nesta
metamorfose do eu, espero que a criança que sou nunca pereça nem se confunda
com a capa que visto.
Ser jovem não quer dizer que somos imaturos ou
inexperientes, ser jovem e ter sonhos por concretizar não significa que não
estamos no caminho certo, são os caminhos “errados” ou a experiência de vários
que nos leva ao rumo certo e as dúvidas são a fonte do conhecimento. A
paciência é uma virtude e a “quietude” também o deveria ser, não tenham pressa
de crescer, não vistam o fato que vos é imposto: dancem na rua, cantem na chuva,
nadem na lama!
Quero concluir com isto que, ainda que o relacionamento que
procuramos seja do tipo desafiante, daquele que nos ensine e mostre algo novo
todos os dias e que nos estimule a ser cada vez melhores, que nos faça crescer
mas que nos mantenha sempre jovens. A premissa inicial e principal tem de ser a
de sermos nós próprios, de nunca duvidarmos da pessoa que somos e a de nos
fazermos acompanhar de alguém com o qual possamos ser o nosso eu mais íntimo,
sem medos.
Ainda assim, porque é que preferimos aquele que nos deixa desconfortáveis
e nervosas , ao ponto de ficarmos sem assunto de conversa, à pessoa que nos tem
sempre algo a dizer e sabe sempre o que dizer e quando o dizer? O que é que há
na proximidade e intimidade que nos assusta? O que é que existe nos
desconhecidos que nos cativa?