O (Des)Encontro

Ontem vi-te, cinco anos depois. 
Passaram cinco anos, é verdade. 
Apesar da saudade se tornar cada vez mais insuportável e talvez por ter tão presente todos os momentos que passámos juntos “ontem”, parece que não fomos vítimas do tempo. 
Ao contrário de ti que acreditas que o tempo não resolve nenhuma situação por nós (simplesmente a retira do foco principal), eu, por achar que “o tempo cura tudo”, pus nas mãos dele o nosso destino e, nas do espaço coloquei o nosso encontro. Todavia, a cidade que descrevias como um T0 não o facilitou
Inúmeras vezes especulei sobre o nosso reencontro. Se sentiria alguma coisa ou o que seria mais expectável: sentir algo ou coisa nenhuma.
Mas ontem, o espaço e o tempo colocaram-nos no mesmo espaço ao mesmo tempo. Ontem, passados 5 anos.


Estavas num ponto de cota elevada, eu estava um pouco mais atrás, no final da rua por onde caminhavas ou talvez início, pois caminhavas de costas para mim.
Apesar de ser complicado descrever sentimentos pois mesmo que queiramos não conseguimos recriar o momento que o despoletou e, por sua vez, não conseguimos recriar o sentimento experienciado: eu voltei a sentir-te. 
O meu coração estava a bombear tão rápido e a soar tão alto que achei que se iria escapulir do tórax ao teu encontro. Associado à dormência do meu corpo, um formigueiro alastrava-se e mantinha-me imóvel. Foi então que o meu corpo petrificou e, mais uma vez, em vez de correr atrás de ti, fiquei ali, como uma estátua, na esperança que a rua por onde caminhas fosse um circulo e que acabasse onde começou, em mim.


Ao longo destes 5 anos e aliada ao tempo, essa esperança que falo, foi desvanecendo. Como disse, deixei que o tempo ditasse se e quando nos voltaríamos a encontrar, contudo procurei-te
Marcar o teu número depois de ter rejeitado inúmeras chamadas, ou mandar-te mensagem quando te tinha deixado sem qualquer resposta em todas as anteriores seria insensato, por isso procurei-te. Posteriormente a baixares os braços e teres dado como terminado o monólogo que tinhas comigo, procurei-te.
Durante anos tomei café nos nossos sítios prediletos, passeei por todos os nossos jardins, até passei, por mero acaso, à tua porta. Até que, quando comecei a pisar pedras de calçada que não tinha pisado anteriormente, a conhecer locais que até então desconhecia, a provar cafés noutras esquinas, a criar uma nova rotina e a aceitar uma rotina sem ti, sem pensar em ti: tu apareces-me à frente! 
Tal como a minha avó dizia: “quando deixares de procurar, aparece!” e ia encontrar as minhas chaves nos sítios mais improváveis, como no frigorífico, tu (re)apareceste.
Já sem réstia de esperança e após te ter retirado da minha lista de "perdidos e achados" (por te ter dado como irremediavelmente perdida), tu apareceste, sem previsão, sem aviso, sem contexto. 
Se não existia contexto para te este reencontro, ainda menos haverá para te escrever, contudo, há muito que tenho uma incomensurável vontade de te escrever, todavia não tenho coragem de o fazer: do que é que nos serve a vontade se não temos coragem?
Sei que estou fora de prazo mas hoje, por fim, tive coragem de te escrever, talvez não pelos melhores motivos e certamente fora de horas ou, melhor dizendo, anos…


A lembrança que tenho mais presente é a do nosso último dia juntos que corresponde também ao último dia do nosso namoro. 
Tínhamos tido a mesma conversa durante todo mês mas tu não conseguias ser assertiva e tomar uma decisão que, mesmo sendo difícil, era a correcta. Tinhas adoptado uma atitude passiva pois não sabias o que mais fazer por nós, por este barco que não saía do mesmo sítio. Agora, a batata quente estava do meu lado e tive de tomar uma decisão que, embora difícil, era a mais fácil para mim: como já não te conseguia fazer feliz, tomei a opção que me descartava desse cargo. Orgulhoso, nunca voltei atrás com a minha palavra e, só passado algum tempo consegui admitir, para mim, o erro.
Durante esse mês em que já não tinhas forças para nos levar à superfície, continuavas a dizer: “Enquanto houver hipótese, vou pôr a hipótese!” porém as hipóteses tornaram-se: “Não estarmos juntos” vs. “Estarmos juntos embora tristes” e, acredita, é insuportável ver-te triste! Portanto, mesmo sendo difícil era a solução mais fácil, pelo contrário, ainda que fosse a opção certa, foi um erro. 
Talvez não te tenha conseguido confrontar antes e admitir o meu erro porque a última memória que tenho tua é a do teu choro compulsivo. 
Tinhas aguentado tanto tempo em esforço que, se por um lado senti um alívio para ti libertares, através do choro, esse peso que carregavas, por outro: “ - batalhei tanto para agora ir cada um para seu lado?” balbuciavas entre soluços, inspirações profundas e um oceano de lágrimas. 
Não sabia o que mais te responder, nem conseguia olhar para ti sabendo que era o causador daquele infindável pranto. 
Lembro-me de estarmos no teu carro e, embora seja uma música de cariz sexual e nada melancólica, começou a dar na M80 a música: “Hurt so good”. Mal ouvi o primeiro verso, dei um murro no tablier: “- só me faltava esta!”, pensei. E enquanto estava a tentar mudar de frequência, o teu choro parece acalmar. A cada: “sometimes love don't feel like it should” acalmavas. Até que, olhaste para mim e disseste docilmente: “É porque não tem de ser!”. Foi aí que percebi que também tu já tinhas desistido de nós, já não havia outra hipótese. 


Mas ontem vi-te. E, após ter deixado à mercê do tempo e do espaço o nosso (re)encontro, lembrei-me da frase que me disseste e perguntei a mim mesmo: “será que tem de ser? será que pode ser? será agora?”.  Nunca couberam tantos pensamentos num fragmento de segundo. 
Finalmente, estávamos no mesmo espaço e tempo. Foi então, no momento que te tentei alcançar, que estagnei e perguntei (não só a mim próprio, como também ao espaço e ao tempo) se me teriam colocado ali para perceber que eu estava atrás dela, que ela tinha andado em frente, que eu era passado. Sentindo-me derrotado, pensava: ainda que o tempo fosse o “presente”, eu não tinha direito de voltar e criar em ti uma avalanche de sensações e sentimentos comparáveis aos de quem vê um fantasma. 


Contudo, feliz ou infelizmente, ontem vi-te e, ainda que a tua presença me tenha reduzido a visão periférica, eu soube que era passado quando o vi ao teu lado.


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