A TRÊS - Parte II




Passados uns 2/ 3 meses de estarmos repetitivamente juntos e, na tentativa de perceber a relação que mantínhamos, confrontei-o com o tema da existente namorada.
          
Viviam juntos e partilhavam uma vida de casal juntos. Nesta conversa, fiquei ciente de que não existiu momento algum, anterior a mim, que tivesse motivado a procura de conforto fora da relação e que, durante esses meses que passámos juntos, nada na vida deles mudara.

Quis achar que a relação deles tinha os dias contados; quis acreditar que ele se estava a desmarcar desta (não da melhor forma) mas que a ascensão da nossa afinidade resultava em detrimento da que mantinham.
Se assim não fosse, que outra razão o levaria a fazer mais do que “Bragança a Lisboa” para me ver? Se não era por mim ou por nós, seria o excitamento? O segredo? A omissão? A vida dupla?

Nunca lhe tinha pedido para a deixar, nem lhe desejaria esse mal, contudo, se nunca lhe pedi foi porque, como altruísta que sou, não queria sentir a culpa e a dor do término de uma relação em prol da nossa. Ainda assim, eu queria ficar com ele e que ele ficasse, SÓ, comigo.  
Pareço passiva com estas palavras: não lhe peço para a deixar mas não tomo nenhuma atitude relativamente a tal - e fui pois, enquanto me mantinha na esperança de que era eu com quem queria ficar, sem hesitar, eu ficava.
Eu, que nunca me sujeitava, era a segunda escolha de alguém e isso bastava-me?!
Algum dia tinha de ter força para me confrontar com estas perguntas que me aterrorizavam, levava muito tempo a evitar fazer todas as perguntas em que a resposta me pudesse magoar.

Cheguei a fazer-lhe um ultimato, dizer-lhe com todas as letras: “- ou eu ou ela.”
Ele, de sua justiça, explicou-me que por um lado terminar uma relação com uma pessoa com quem se vive não é tão simples, nem imediato e, que por outro manter uma relação comigo a 1000 km de distância (bem mais do que “de Bragança a Lisboa”) também não é fácil.
Como é óbvio, eu não percebia a dificuldade e, mais óbvio ainda, difícil para mim era esta situação. 
Ficámos sem falar um bom tempo… Tempo necessário para ele se decidir, tempo suficiente para convencer-me de que se ele se decidisse por ela, eu também decidia por mim: deixava-o.
Talvez, tenhamos voltado a falar na semana seguinte (pareceu-me demasiado tempo), contudo, ele, como homem que é, não arredava pé: via-o a mandar-me corações em todas as publicações que fazia - e, eu, como mulher que sou – e apaixonada – aproveitei, uma noite em que os copos já se faziam sentir, para lhe dizer: “tenho saudades tuas”.

Até hoje, nunca mais voltámos a falar dela. Porque é que ele se lembrou agora de tocar neste assunto?

Enquanto me explicava o que para ele significava “relação confortável” e divagava em como não era com ela que se via a casar e a ter filhos, eu suspirava sem comentar nada (quando não se tem nada de bom a dizer mais vale) até que ele pára de falar e, pela primeira vez senti entre nós um silêncio assombroso.
Perguntei-lhe, a princípio numa tentativa de amenizar a situação: “ -Vais continuar assim mesmo sabendo que não vês futuro nessa relação?”, ele, passa a mão pela cara, engole em seco, arrega-la os olhos, respira fundo (acho que não esperava que fosse tão directa) e diz a medo: “- Sim, vou.”. Acho que só depois de o dizer em voz alta é que se consciencializou que só estava numa relação confortável porque era comodista e que se tinha conformado com o tipo de envolvimento que mantinham.
Senti pena dele… Porém, já sem pestanejar nem gaguejar, muito menos pensar duas, repliquei: “-Se vais manter a tua relação, eu vou terminar a nossa.”

(Continua…)




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